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Programas de recompensa de cartões de crédito representam uma das formas mais acessíveis de economia no orçamento familiar, mas pesquisa da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito (Abecs) revela que 68% dos brasileiros escolhem o programa errado para seu perfil de consumo. O resultado é frustrante: acumulam pontos que expiram sem uso, pagam anuidades que não se justificam pelos benefícios recebidos, ou simplesmente deixam dinheiro na mesa ao optarem por recompensas de baixo valor.
A diferença entre escolher o programa certo e o errado pode significar R$ 800 a R$ 2.500 anuais em benefícios perdidos para uma família de classe média que gasta R$ 4.000 mensais no cartão. Esse valor representa de 6 a 19 meses de anuidade desperdiçada, ou o equivalente a uma viagem nacional ou vários eletrodomésticos que poderiam ser adquiridos com o retorno adequado.
O problema não é falta de opções, mas excesso de informações conflitantes. Bancos promovem seus programas como “os melhores”, influenciadores digitais recebem comissões para indicar cartões específicos, e comparações independentes frequentemente ignoram fatores cruciais como perfil de gasto individual, frequência de viagem e disciplina financeira necessária para maximizar cada tipo de programa.
Importante: A escolha entre cashback e milhas deve considerar estilo de vida, padrão de gastos e objetivos financeiros, não apenas marketing atraente.
Como Funcionam os Programas de Cashback
Cashback é o programa mais direto: você recebe de volta um percentual de cada compra, geralmente entre 0,5% e 5% dependendo da categoria. A simplicidade é sua maior vantagem. Não há complicações com conversões, validade de pontos, categorias de resgate ou programas de parceiros.
Os melhores programas de cashback estruturam-se em categorias. Supermercados podem oferecer 3% de retorno, postos de combustível 2%, restaurantes 2% e demais compras 1%. Para família que gasta R$ 1.500 mensais em supermercado, R$ 800 em combustível e R$ 700 em outras categorias, o retorno mensal seria R$ 68 (R$ 45 + R$ 16 + R$ 7), totalizando R$ 816 anuais.
A principal vantagem é a liquidez imediata. O cashback pode ser usado para abater fatura do cartão, transferido para conta corrente ou, em alguns casos, utilizado como desconto em compras futuras. Não há necessidade de acumular por meses ou anos para ter retorno significativo. Qualquer valor, por menor que seja, já representa economia real.
A desvantagem é o teto de retorno. Mesmo com as melhores taxas, dificilmente alguém consegue mais que 2,5% de retorno médio, considerando a distribuição real de gastos entre categorias. Para gastos mensais de R$ 5.000, isso representa R$ 125 mensais ou R$ 1.500 anuais no melhor cenário.
Como Funcionam os Programas de Milhas
Programas de milhas aéreas funcionam por acúmulo de pontos que podem ser convertidos em passagens. A taxa de conversão varia: alguns cartões oferecem 1 ponto por dólar gasto, outros 1,5 ou até 2 pontos. Para passagens domésticas, geralmente são necessárias 10.000 a 25.000 milhas. Internacionais podem exigir 30.000 a 100.000 milhas dependendo do destino e classe.
O retorno teórico pode ser muito superior ao cashback. Uma passagem São Paulo-Miami que custa R$ 3.500 pode ser resgatada com 35.000 milhas. Se você acumulou essas milhas gastando R$ 35.000 no cartão (a R$ 1 real = 1 milha), o retorno foi de 10%, muito superior aos 2% típicos de cashback.
O problema está nas condições. Primeiro, milhas têm validade de 12 a 24 meses dependendo do programa, podendo expirar se não forem usadas. Segundo, disponibilidade de assentos para resgate é limitada, especialmente em datas concorridas. Terceiro, taxas de embarque em resgates internacionais podem chegar a R$ 800, reduzindo o benefício real. Quarto, o valor da milha varia drasticamente dependendo da rota e disponibilidade.
Análise Financeira: Quando Cada Um Compensa
Cashback compensa para quem não viaja regularmente de avião, prefere liquidez e simplicidade, gasta volumes moderados no cartão (R$ 2.000 a R$ 8.000 mensais), quer retorno garantido sem depender de disponibilidade ou validade, e valoriza flexibilidade de usar o benefício como preferir.
Milhas compensam para quem viaja pelo menos 2 a 3 vezes ao ano de avião, tem flexibilidade de datas para aproveitar disponibilidade, consegue acumular volumes significativos (mínimo 30.000 milhas anuais), tem disciplina para não deixar milhas expirarem, e valoriza experiências de viagem mais que dinheiro em conta.
Um cálculo prático ilustra a diferença. Família que gasta R$ 6.000 mensais no cartão com cashback de 2% recebe R$ 1.440 anuais. A mesma família com cartão de milhas (1 ponto = R$ 1) acumula 72.000 milhas anuais, suficientes para duas passagens domésticas (ida e volta) que custariam cerca de R$ 2.400, representando retorno de 3,3%. Contudo, se essas milhas expirarem sem uso ou se a família não conseguir viajar nas datas com disponibilidade, o retorno real será zero.
Estratégia Híbrida: O Melhor dos Dois Mundos
Consumidores sofisticados frequentemente adotam estratégia híbrida: cartão principal com cashback para gastos cotidianos garantindo retorno certo, e cartão secundário com milhas para gastos maiores ou categorias específicas que acumulam rápido. Essa abordagem combina segurança do cashback com potencial de retorno elevado das milhas.
Ao comparar diferentes opções de cartão de crédito disponíveis no mercado, preste atenção não apenas ao tipo de recompensa, mas também à taxa de conversão real, categorias com bonificação, anuidade versus retorno esperado e facilidade de resgate. Um cartão com “milhas dobradas” mas taxa de conversão ruim pode render menos que cashback simples.
Plataformas especializadas como Credyd facilitam essa análise ao permitir simulação de retorno baseada em seu perfil real de gastos, eliminando suposições e comparando retorno efetivo considerando todos os fatores relevantes.
Armadilhas Comuns a Evitar
Não pague anuidade se o retorno anual não superar o custo. Um cartão com anuidade de R$ 600 precisa gerar pelo menos R$ 700 em benefícios para compensar. Não acumule milhas sem plano concreto de uso. Defina previamente quando e para onde viajará antes de escolher programa de milhas. Não ignore a validade. Milhas que expiram representam dinheiro jogado fora. Não escolha baseado apenas em marketing. Calcule retorno real para seu padrão específico de gastos.
Conclusão
A escolha entre cashback e milhas não tem resposta universal. Cashback oferece simplicidade, liquidez e retorno garantido, ideal para quem valoriza praticidade e não viaja frequentemente. Milhas oferecem potencial de retorno maior, mas exigem volume, disciplina e flexibilidade para serem verdadeiramente vantajosas. A decisão correta depende de análise honesta do seu estilo de vida, volume de gastos e capacidade de maximizar o programa escolhido. O pior cenário é escolher por impulso e descobrir meses depois que deixou centenas ou milhares de reais em benefícios na mesa por falta de planejamento adequado.
