sábado, novembro 7, 2026

Mancha verde de 30 km no Rio Bacajá provoca morte de peixes e deixa comunidades sem água potável no Pará

Análises do Lacen confirmaram superproliferação de cianobactérias nas águas do rio. Indígenas e ribeirinhos de Anapu e Senador José Porfírio enfrentam riscos à saúde e estão impedidos de utilizar a água.

Uma mancha verde de aproximadamente 30 quilômetros de extensão está se espalhando pelas águas do Rio Bacajá, no sudoeste do Pará, provocando preocupação entre indígenas e comunidades ribeirinhas. Moradores relatam a morte de peixes e dificuldades no acesso à água potável, enquanto especialistas alertam para os riscos de contaminação.

O problema atinge diretamente os municípios de Anapu e Senador José Porfírio, afetando a Terra Indígena Trincheira Bacajá, habitada pelo povo Xikrin, a Terra Indígena Arara da Volta Grande, do povo Arara, além de diversas comunidades que dependem do rio para sobreviver.

Análises laboratoriais concluídas na quinta-feira (5) pelo Laboratório Central da Secretaria de Saúde Pública do Pará (Lacen) confirmaram que a coloração esverdeada é provocada por uma superproliferação de cianobactérias, microrganismos que podem produzir substâncias tóxicas prejudiciais à saúde humana e aos animais.

Especialistas alertam para riscos à saúde

Segundo o especialista Dilailson Araújo de Souza, que avaliou os resultados laboratoriais, a situação é considerada grave e exige a suspensão do contato com a água do rio.

“O risco é alto, a situação é grave. É necessário que se suspenda todo contato com a água do rio, porque existe um potencial grande de presença de cianotoxinas”, alertou.

O especialista explicou ainda que métodos tradicionais de tratamento doméstico, como coar a água com panos ou utilizar filtros de barro, não são suficientes para eliminar possíveis toxinas produzidas pelas cianobactérias.

De acordo com o laudo, a concentração desses microrganismos chegou a 213.520 células por mililitro em determinados pontos do rio, número mais de quatro vezes superior ao limite de 50 mil células/mL utilizado como referência pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

Em uma das amostras, a quantidade de cianobactérias foi tão elevada que não pôde ser mensurada pelo laboratório.

Seca extrema pode ter contribuído para o fenômeno

Os primeiros relatos sobre o aparecimento da mancha verde foram feitos por indígenas da aldeia Pykayako, do povo Xikrin, por volta de 23 de outubro. No dia 27, pesquisadores do Instituto de Monitoramento Territorial Ambiental Independente e Ciência Intercultural da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX) identificaram oficialmente o problema.

Especialistas apontam que a seca extrema e as altas temperaturas da água podem ter favorecido a multiplicação acelerada das cianobactérias.

Os pesquisadores também investigam a possibilidade de influência de contaminantes externos, como agrotóxicos, fertilizantes e produtos químicos associados a atividades de garimpo ilegal. Até o momento, não há confirmação de que essas substâncias tenham contribuído para o fenômeno.

Amostras adicionais foram encaminhadas à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para investigar a possível presença de metais pesados.

Comunidades indígenas enfrentam dificuldades

A situação alterou a rotina das famílias que dependem diretamente do Rio Bacajá. Por recomendação preventiva, moradores foram orientados a suspender o consumo de peixes e a utilização da água para beber, tomar banho e realizar atividades domésticas.

O indígena Paulo Passos Ferreira, do povo Arara e pesquisador do MATI-VGX, relatou preocupação com os impactos ambientais.

“Nasci e cresci aqui e nunca tinha visto isso. Não temos mais como tomar banho no rio, também não podemos pescar”, afirmou.

A ocorrência preocupa ainda mais por acontecer às vésperas do período de piracema, quando ocorre a reprodução de diversas espécies de peixes. Na região, o período de defeso está previsto para começar em 15 de novembro.

MPF cobra providências urgentes

Diante da gravidade da situação, o Ministério Público Federal (MPF), em Altamira, informou que encaminhou pedidos de providências urgentes ao poder público para enfrentar os impactos ambientais e garantir assistência às populações atingidas.

Em nota, a Norte Energia, responsável pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte, afirmou que não existe relação causal entre a ocorrência registrada no Rio Bacajá e a operação da hidrelétrica.

A empresa declarou que cumpre as determinações judiciais relacionadas ao Trecho de Vazão Reduzida (TVR), incluindo o fornecimento de água e os monitoramentos ambientais previstos no licenciamento.

A Norte Energia também informou que permanece disponível para dialogar com autoridades e lideranças locais, inclusive para avaliar possíveis ações de apoio humanitário às comunidades afetadas.

Enquanto as investigações continuam, indígenas e ribeirinhos aguardam medidas emergenciais para garantir o abastecimento de água segura e reduzir os impactos sobre a saúde, a alimentação e o meio ambiente.

Fonte: g1 Pará

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